O que acontece com a qualidade do relacionamento nas nossas escolas? Como intervir? O que poderia trazer qualidade a esse aspecto vital para o sucesso dos processos de construção do conhecimento?
Em primeiro lugar, a qualidade dos relacionamentos se deteriora a olhos vistos em todos os segmentos da sociedade. Não é um problema só da escola, é uma questão muito mais ampla e grave. Não obstante, a escola é, por excelência, o lugar onde podem nascer as soluções, mesmo porque em algum lugar teremos que começar, antes que voltemos todos ao comportamento da busca tão somente pela sobrevivência de cada um.
O desrespeito, o desprezo pelos valores e pela ética, a falta de reconhecimento do outro como indivíduo, único em suas características e com direito a elas, tem levado a um jogo de forças brutais, a uma total incompetência para valorizar a diferença, transformando-a em fator de soma e multiplicação, ao invés de vê-la como fator de diminuição, desagregação, divisão.
Porém, antes de criticarmos os pais porque não educam em casa, os professores porque não sabem lidar com os alunos que lhes chegam às salas de aulas e aos serviços de orientação, é preciso dar a essas pessoas as ferramentas para lidar com todos esses aspectos. Porque não podemos esquecer que a forma de se relacionar adotada por todo indivíduo, é fruto do seu aprendizado, é a estratégia que aquela pessoa desenvolveu para lidar com as dificuldades, as carências materiais e emocionais, as frustrações. Aprendeu como? Espelhando-se em modelos em casa, na escola, na rua, nos grupos sociais ou na solidão da exclusão.
Então, como romper essa cadeia que parece aprisionar a todos em um ciclo que se repete e perpetua?
Interferindo nele.
Mas começar por onde?
Parece que o mais lógico seria dotar os professores das necessárias ferramentas para quebrar essa corrente que aprisiona, amedronta, separa, intimida, isola, coloca todos na defensiva.
Os professores estão mais urgentemente carentes desses instrumentos, ao mesmo tempo em que estão, de certa forma, mais acessíveis a uma preparação para lidar de uma nova maneira com os eventos que aqui discutimos, já que impraticável seria reeducar toda a população.
As ferramentas-base para esse processo de mudança são a capacitação para um real desenvolvimento pessoal, crescimento, expansão da flexibilidade, das competências negociais, do saber aceitar os nãos que a vida traz todos os dias, sem que isso contribua para uma autodesvalorização, passando esses fatores todos a representar um conjunto de desafios, de metas a serem superadas positiva e produtivamente.
As pessoas em geral, na nossa cultura, não estão preparadas para esses desafios, exatamente porque foram formadas por pessoas que originalmente não tinham essas habilidades. A adoção das estratégias que cada um adota precisa ser vista como consequência dos modelos e não como opção de cada um. Só pela via saudável do desenvolvimento pessoal, do reforçamento da auto-estima, da construção da verdadeira assertividade (não aquela assertividade que muitas vezes mascara a agressividade), poderemos alcançar um patamar relacional mais elevado, em que as interações entre pessoas se transformem em encadeamentos construtivos, contribuindo para resultados produtivos. Professores preparados para sair do pedestal em que muitos ainda esperam estar, para serem aberta e verdadeiramente parceiros na construção do conhecimento, incluindo nessa construção os edifícios não só das melhores técnicas, mas também das melhores trajetórias de cidadania responsável.
Sem a passagem pelo caminho do autoconhecimento, da melhoria da qualidade do ser de cada um, não se chegará ao ter de cada um, pois se um constrói e o outro destrói, estamos patinando eternamente na mesma rota. Uma rota muitas vezes repetida só faz se aprofundar, tornando cada vez mais difícil galgar suas margens e sair dela para tomar novos rumos, empreendendo novas trajetórias.
Fica então aqui o convite, para refletirmos, buscarmos, aperfeiçoarmos antes de mais a nossa condição interna como professores, pois só assim estaremos aptos a contribuir efetivamente para a partilha do bem maior, que são os conhecimentos e a sabedoria da construção coletiva que faz o social em seu sentido e visão de igualdade de oportunidades, inclusão, partilha, construção.